Estórias

XIII - Uma mão interessante ou as voltas do bridge

No campeonato de equipas da ARBL surgiu uma mão interessante e que dá pano para mangas seja na discussão de qual é o melhor contrato, seja na análise do contrato de 3ST, opção escolhida pela maioria dos pares. As 4 mãos:

9
Dador:Norte
Vul: EO

R10872
A5
V96
AD4
 
AD
DV10974
D53
73
  V6543
632
108 
R98
  9
R8
AR742
V10652
 

Depois da abertura de 1 de Norte e jogando 2/1, Sul tem um primeiro problema para resolver: marcar 2 (FG) ou 1ST? O singleton no naipe do parceiro desaconselha, do meu ponto de vista, optimismos em excesso, daí que 1ST (F1) fosse a opção escolhida. O R na passagem parece ser a resposta para o sucesso de qualquer dos contratos. Mas o contrato de 3ST tem, de cartas à vista, uma chance adicional: uma defesa simpática.

A saída normal de Este é ao 2 contra 3ST, dado o leilão e a abertura de Norte. Normal também é o declarante entrar no R e fazer a passagem a paus. E tudo se decide nesta primeira vaza. Se Oeste for displicente e jogar o 4 o contrato pode ganhar-se. Jogadas 2 vazas de copas, 5 paus e 1 oiro, Oeste tem de guardar 2 oiros, 1 espada e 2 copas. Metido em mão no A, faz as 2 vazas a copas e vira-se em oiros para a 9ª vaza do declarante. A carta chave do jogo é, assim, o 4, que Oeste tem de guardar religiosamente. No final referido, as 2 cartas de copas de Oeste serão D4. Com o 4 entra na mão do parceiro que volta oiros, deitando por terra o tão aplaudido final.

A importância das pequenas cartas e as muitas nuances que fazem do bridge um jogo fantástico.

XII - A partida dos milagres revisitada

Durante muitos anos a partida dos milagres, assim baptizada pelos próprios intervenientes, tinha lugar todas as tardes nas salas do CBL. Inúmeros foram os casos dignos de figurar nos livros de Vitor Mollo. Desses tempos fica a memória e a saudade de muitos que já não estão entre nós. Ora estava eu a assistir no BBO à transmissão dos Campeonatos da Europa de Clubes, prova que reunia muitos dos jogadores de topo do bridge mundial quando, de repente, me vi de regresso à partida dos milagres. Ora vejam lá o que aconteceu:

Norte apresentava a seguinte mão:
E: DV8642
C: R7542
O: ---
P: 72
O leilão seguiu:

NORTE
ESTE
SUL
OESTE
P
3
P
5

 

 

De súbito o jogador em Norte sentiu necessidade de anunciar o seu potente bicolor rico e não encontrou melhor maneira de o fazer que marcar 5. Da solução imaginativa resultaram os óbvios Passe - Passe - Dobro. De volta a Norte, havia que seguir o raciocínio e lá saiu mais uma granada de fumo com um esclarecido Redobre. Já estão a ver o resultado: após 3 passes consecutivos e 7 cabides mais tarde a linha EO averbou 3400 na coluna, número que faria inveja ao nosso saudoso EDU.

Para a história de um quase certo recorde em provas de topo internacionais, aqui ficam as 4 mãos:

25
Dador:Norte
Vul: EO

DV8642
R7542
---
72
 
A953
V109
ARV92
R
  10
D
D107 
DV1098653
  R7
A863
86543
A4
 

Jogava-se a meia-final do Campeonato da Europa de Clubes mas este episódio poderia muito bem pertencer ao arquivo da partida dos milagres.

Luis Oliveira

XI - Intervir ou não intervir

Numa das rondas de apuramento dos recentemente disputados CE apareceu uma mão que causou fortes danos em muitas equipas. Que condições necessita ter o jogador nº2 a seguir a uma abertura em 2 fraco para entrar no leilão. Um bom naipe? Um bom jogo (pontos)? Ambas? Estas são as perguntas para as quais cada parceria deverá encontrar respostas.

Está em Este, vulnerável contra não vulnerável, em 2ª posição e o seu adversário abriu em 2 fraco (seja multicolor, seja no próprio naipe). O que faz com?

E- A 4                                            
C- R 5 3                                                            
O- 8 7                                                     
P- A V 6 5 4 3

A minha reacção imediata é passar! Bem ou mal, deixo ao vosso critério, mas arrepia-me só de pensar entrar em 2ª posição com um mau naipe e um jogo pouco melhor que mau. Utilizando uma figura de estilo que ganhou visibilidade na política portuguesa, "qual é a pressa?"

Se Sul tiver uma mão forte, ficamos imunes a um castigo severo, se for o parceiro a ficar em posição de réveil por certo irá reabrir. Qual é a pressa e quais são os perigos de passar?

Pois bem, cerca de 40% dos jogadores em competição, entre open, senhoras e seniores decidiram entrar em 3, com os resultados a variarem entre os 1100 e os 1400, contra uma partida do lado contrário. É certo que os resultados sustentam e dão razão à minha opção de passar. Mas não é isso que está em causa. O que importa discutir é o que há a ganhar ou a perder com este tipo de intervenções. A ganhar, na minha modesta opinião, NADA! Se o jogo estiver no nº3 (que era o caso) entramos na Twilight Zone. Se estiver no parceiro, não havia necessidade, como diria o famoso diácono Remédios para além do leilão poder ir parar à estratosfera. As 4 mãos eram:

25
Dador:Norte
Vul: EO

R 10 9 8 6 5
V 7 4
A V 4
8
 
V 7 3
10 8 6 2
D 9 3 2
7 2
  A 4
R 5 3
8 7 
A V 6 5 4 3
  D 2
A D 9
R 10 6 5
R D 10 9
 

Pode sempre argumentar-se com o azar para justificar os 1100 ou os 1400. Proponho um exercício: troque as mãos de Sul com Oeste e sente-se aí. Agora vê o seu parceiro entrar em 3, vulnerável. Será que consegue parar antes de 6? Onde pretendo chegar é à conclusão que as probabilidades da entrada de Este neste leilão conduzirem a um mau resultado são muito superiores ao risco (se é que existe algum) de passar.

Ilustres jogadores não foram da minha opinião. Provavelmente existirão razões que a minha razão desconhece e que muito gostaria de conhecer.

Luis Oliveira

IX e X - Comentários do Victor Ferreira aos textos IX e X

Sobre "Nos limites da emoção"

Quanto ao jogo do Europeu afinal qual é a diferença entre 6 espadas e 6 copas? Não se resume quase tudo a adivinhar a posição da D de espadas? Claro que para 6 espadas é necessário que as espadas estejam 3/3 (estavam!!!) enquanto que para 6 copas basta adivinhar!! Será assim ou há alguma linha de jogo a 100% para 6 copas? Falem os experts!

Vitor Ferreira

Uma alternativa possível

Embora fora da classificação de "expert" aqui vai a minha opinião:

Não sendo uma verdade absoluta que, falando de bridge, é coisa que não existe, será de esperar que o manejo de um contrato com 10 cartas de trunfo no campo ofereça hipóteses adicionais em relação a um contrato do mesmo nível com apenas 7 trunfos. No caso presente e admitindo a mais que provável saída a paus, até porque é a única que pode criar alguma dificuldade ao carteador, para além da lotaria de adivinhar a colocação da D, resta ao declarante encontrar hipóteses alternativas. Nestas coisas de precisar de uma passagem que pode funcionar para qualquer dos lados, a melhor solução é mesmo tentar que seja um dos adversários a jogar o naipe. Assim, ganha a vaza de saída, corta um oiro na mão, um pau no morto, mais um oiro e um pau cortados e estamos no morto. Agora copa para o A e copa. Se o R estiver em Este a defesa fica sem solução - oiros, que permite baldar 2 espadas da mão ou espadas para a automática descoberta da D. Se a mão tivesse ficado em Oeste, seguir-se-ia seguramente um pau, cortado na mão e o regresso ao dilema original: cherchez la femme.

Esta mão foi jogada 18 vezes na fase final dos CE. Por 14 vezes o contrato foi em 6 e de todas as vezes foi cumprido. Não havendo registo da sequência dos diferentes manejos, creio não ser arriscado prever que a maioria dos declarantes descobriu uma solução alternativa à simples passagem a espadas, ou as frequências teriam sido, necessariamente, diferentes

Luis Oliveira

Sobre "Uma história de programas"

Quanto à estória do Casimiro e do Tó e conhecendo eu o Tó, como julgo que conheço, e o Casimiro, que é "rapaz" de "colaborar" em qualquer "coisa", tenho uma versão para o KXT ( a utilização de aspas nalgumas palavras é para reforçar a ideia!!! LOL).
Vamos lá então. Matemàticamente (palavrão do desacordo ortográfico) X é uma incógnita! Y também o é mas como o X precede o Y o X é uma incógnita maior! Ainda pela dita matemática é universalmente aceite que X+Y= Z sendo Z o universo!!!
Assim, KXT quererá dizer capa quase todos! Isto porque X será a maioria e T será a abreviatura de todos! Este T será a versão "poética" do Z matemático (tanto dá para o Tó como para o Casimiro!!).
O K transformar-se em "capa" é versão muito minha!

Vitor Ferreira

X - Nos limites da emoção

Um Campeonato da Europa é sempre um evento capaz de enriquecer a história do bridge, seja com episódios pitorescos, seja com exemplos de técnica superior dos jogadores mais dotados. Uma história que deixa registada para a posteridade os nomes dos vencedores e as suas incríveis proezas na mesa de jogo. Mas, como em qualquer outro aspecto de vida, existe sempre o outro lado da história. O lado de quem perdeu. A angústia de quem viu esfumar-se, como grão de areia entre os dedos, a expectativa de figurar na galeria dos vencedores.

Este artigo irá visitar esse outro lado sombrio e solitário da história.

A acção passa-se na Croácia. Estamos no último encontro do Open com quase tudo por decidir: quem ganha, quem fica no pódio, quem se apura para a Bermuda Bowl. Na luta pelo título Israel, Mónaco e Inglaterra, com estes últimos em confronto directo. E se a proximidade na classificação já deixava no ar adrenalina q.b., a competitividade no encontro entre Mónaco e Inglaterra esteve sempre ao rubro, com alguns dos melhores praticantes do mundo a explicarem porque é o bridge um jogo extraordinário. A três mãos do fim de tudo o Mónaco seguia na frente da prova, com uma ligeira vantagem sobre Israel a quem o último encontro não estava a correr nada bem. Até que...

30
Dador:Este
Vul: ---

A 10 8 7
A 8 6 4 3 2
-
9 8 2
 
D 9 2
7
9 5 4
R V 6 5 4 3
  5 4 3
R 9
R V 10 6 2 
D 10 7
  R V 6
D V 10 5
A D 8 7 3
A
 

O leilão seguiu:

ESTE
SUL
OESTE
NORTE
P
1*
3
3
4
4**
P
4ST
P
5
P
5
DBL
RDBL
P
5
P
6
P
6
P
6
   

A abertura é forcing por 1 volta e mostra 5+ cartas no naipe ou um tricolor 4-4-4-1. Tudo parecia normal, até que surgiu a voz de 4. Uns opinavam que seria Blackwood para copas, outros iam adiantando que Sul tinha entendido a voz de copas como transfer para espadas o que se veio a revelar como sendo a aposta certa já que demorou pouco até Sul aterrar em 6. Saída a copas de Oeste e tudo afinal parecia depender de encontrar a D, tal como no muito mais cómodo contrato de 6 jogado na outra sala. A necessidade de cortar 1 pau na mão de Sul trazia ainda a acrescida dificuldade de "exigir" os trunfos 3-3. O declarante (Cláudio Nunes) entrou no A, veio à mão em paus e jogou a D, pondo Oeste (Robson) à prova. Uns minutos mais tarde um pau foi baldado, Este (Forrester) fez a vaza e quando todos esperavam um pau, veio o oiro que, à primeira vista, parece facilitar a vida ao declarante. Longe disso! Sul ficou agora com 2 baldas para os paus do morto e entregue a si próprio para encontrar a D. Vários minutos mais tarde, Nunes jogou espada para o Ás e viu o título fugir-lhe por entre os dedos.

Este final dramático não é novidade para o por muitos considerado melhor par do mundo (Fantoni - Nunes) e não será por aqui que irão perder o estatuto de excepcionais jogadores. Ver fugir um título europeu assim é um golpe duro, mas faz parte da vida destes extraordinários intérpretes da modalidade. Para nós, espectadores e comuns mortais, é puro entretenimento e um precioso contributo para alimentar a paixão com que andamos por aqui.

IX - Uma estória de programas por Casimiro Talhinhas

“Genious does what is must,talent does what it can”
Edward Bulwer-Lytton

Prolegómanos
Há quem goste de contar estórias e há quem goste de as ouvir. Mas contar estórias não é para todos. De facto há quem tenha mais jeito que outros, ou porque sabe usar os ingredientes de um forma especial ou porque a estória é de tal maneira fascinante que os detalhes da escrita se subalternizam a eles próprios em face da riqueza do argumento.
Penso que esta estória não é nem uma coisa nem outra, mas, para mim, possui alguns ingredientes que a tornam apetecível para ser lida e ficar como um exemplo da capacidade inventiva do ser humano e a procura constante de produzir mais e melhor
com muito menos trabalho. O que, convenhamos, não é , de forma alguma, coisa para desprezar.


FIG1


FIG 2

Tomemos um pequeno exemplo. Suponha que quer extrair de uma máquina antiga, ainda a funcionar ( Fig. 1) informação para uma moderna de topo de gama ( Fig 2 ), de forma a que esta última “beba” da garrafa antiga e se mostre um produto da era moderna, tipo século XXI.
Alguns dirão : - Não vale a pena isso dá um trabalhão dos antigos e, provavelmente não compensa.
E se compensar?

Princípio
É aqui que começa a minha estória, real, viva da costa e absolutamente recente., começada em 2004. Nesse ano frequentei um curso de arbitragem de bridge para árbitros de clube, tendo como formadores o Luis Oliveira e o Tó Eanes. Aprendi com eles o básico e levei comigo, com alegria de principiante um programa de cálculo de resultados do tempo do cinema mudo (ou quase ) - Fig 1.
Arbitrei com ele muitos torneios de Pares ( só dá para pares ) até que, já mais “crescido”, evoluí para coisas mais sofisticadas, tipo Pairs Scorer e Magic Contest. Mas se eu abandonei o Scorer antigo, o Scorer não me abandonou. Em 2011 por via de um convite do CPB, comecei a arbitrar os Simultâneos que exigem ficheiros do Scorer antigo. Diga-se, de passagem que os modernos sistemas operativos ( Windows 7 , 8 e seguintes ) já não suportam programas como o Scorer, pelo que, penso, é mais uma crónica de morte anunciada.
A situação, ainda hoje vigente nalguns clubes de bridge (incluindo os que se querem intitular de vanguarda ) “obriga” a que o árbitro use um programa dos mais recentes e replique os torneios no Scorer antigo com a introdução de resultados de forma manual. Ou usar o Scorer e introduzir os resultados de forma manual, a partir das fichas ambulantes.
Ou ainda, usar o Scorer com uma plataforma criada por Jeffrey Smith ( autor de programas de pares, equipas, suiços e individuais de download sem qualquer encargo ) que permite usar o BridgeMate Control Software e as respectivas maquinetas ( as já conhecidas Bridgemates). Foi esta a solução que adoptei, depois de ter recebido umas dicas do Zé Curado.
Desde então, já lá vão dois ou três anos, nunca mais inseri um resultado de forma manual.

Meio
Estava eu em sossego, quando o B4Fun fez um acordo com o CPB e me propôs ser colaborador na área de arbitragem. Foi assim que o Scorer, além de voltar, trazia consigo um “velho” conhecido – o Tó Eanes. Aí acabou-se o sossego.
Já conheço o Tó de muitas outra andanças e sei que com ele não há sossego possível. Não vou contar essas outras estórias mas esta não deve ficar na sombra. E que, de forma sucinta se pode enunciar como um problema de viagens de ida e volta entra duas figuras ( 1, o Figurão e 2, a Figurinha ). Se da figura 1 se vai para a figura 2 e vice-versa, para apresentar os resultados numa página de word, porque não andar às voltas, de frente para trás e de trás para a frente sem mexer praticamente uma palha e ter os resultados, mal acaba o torneio numa apresentação digna dos melhores programas de bridge?
Este foi o desafio que muito recentemente colocámos a nós próprios. E foi assim que nasceu o KXT*, ou a plataforma do inverosímil ( ou do descanso possível ). Sei que o Tó é conhecido como uma espécie de “malfeitor” dos programas de bridge -ataca pela calada da noite ou do dia, conforme a disposição, e não descansa enquanto não os esventra em busca das potencilidades que os autores escondem, reinventando-os - mas eu próprio aderi ao bando e tornei-me também um proscrito.
Trabalhar com ele é, acreditem, uma autêntica aventura. Mas não conseguem imaginar o prazer que é encontrar soluções novas para problemas de sempre. Dir-me-ão que dão trabalho a encontrar. Mas que significam, a prazo, uma garantia de descanso, disso não resta a mais pequena dúvida.
*Não tem tradução.

Fim ( ???? )
A capacidade humana não tem limites e ainda bem que assim é. A recusa em ficar sentado à espera que caia alguma coisa do céu aos trambolhões é a única atitude válida perante os problemas que se colocam a todos nós. Deixem-me afirmar que o Tó nunca ficou nem nunca vai ficar sentado. Não é criatura para isso nem o feitio irrequieto dele se deixa encerrar dentro de uma cápsula de imobilismo, onde infelizmente muitos outros se refugiam. Porque há que dar asas ao sonho e sonhar é das muitas coisas que valem a pena.
A propósito, se quiserem saber o que quer dizer KXT, perguntem-lhe. Embora eu não acredite que ele vos diga., talvez sorria e vos responda algo que crie ainda maior confusão.
E escusam de tentar saber o que está dentro do KXT. Tanto eu como ele estamos protegidos por segredo de justiça.

Casimiro Talhinhas

VIII - Psíquico versus psíquico

Se existe alguma palavra que no vocabulário bridgistico não gostamos de ouvir ou pronunciar é o PSIQUICO, porque geralmente é associada a batota, tentativa de enganar o adversário, etc. Em muita situações, não é este o objectivo do jogador, mas simplesmente pôr alguma dificuldade no leilão do adversário.
Confesso, que em 35 anos de bridge de competição, raramente introduzi num leilão um psiquico e vice-versa.
No ultimo dia do recente Torneio de Equipes do Grande Prémio de Portugal, Estava sentado em Norte com a seguinte mão:
NORTE
♠-A.K.7
♥-K.9.6
♦-K.Q.J.7.6.
♣-K.Q
N/S vulnerável e dador Este.
Após 2 passes, estava eu a recontar os meus 21H e a pensar abrir em 2♦(mão balançada 22-23),quando W abriu 1♠. Dobre de Norte e 4♠ de Este. Dobre de Sul e contrato final para 6 cabides com saída ao A♠ e 1400 para a boa coluna.
Quando olhei para os 7H no morto, não queria acreditar no que se estava a passar. O meu parceiro fez 5 vazas e o declarante não fez nenhuma.
O meu primeiro comentário na mesa: Já tenho mais uma história para contar na rubrica “Estórias”. Gargalhada geral na mesa.
No final do encontro, quando estava a matar o maldito vício, o meu parceiro veio ter comigo e deu-se o seguinte diálogo:
Ino : Não vais acreditar no leilão dos nossos parceiros na mão das 4♠X-6.
Carlos: Não marcaram o cheleme.
Ino: Pior que isso.
Carlos : Não marcaram a partida.
Ino : Tambem não.
Após mais algumas tentativas de acertar a resposta …………….
Ino : O leilão foi exactamente igual na outra mesa. A única diferença é que foi 4♠X-5.
Confesso, que pensei que estava tudo combinado. Como era possível nas 2 mesas produzirem o mesmo leilão utilizando o psíquico?
Numa consulta à posteriori, foram possivelmente os únicos pares que abriram a mão de W em 1♠,dado a totalidade ter jogado 3ST e 6 ST.
Coincidências ou bruxarias?
As restantes mãos:
ESTE
♠-J.6.5.4.2
♥-Q.8.3
♦-T
♣-A.6.5.3
SUL
♠-T.3
♥-A.J.T.4
♦-A.4.2
♣-J.T.9.7
OESTE(Psiquico)
♠-Q.9.8
♥-7.5.2
♦-9.8.5.3
♣-8.4.2

Saudações bridgistas
Carlos Ferreira

VII - CUIDADO COM OS RÉVEILS (PARTE 2)

Olá LO,

Na ultima jornada das séries neste recem terminado regional de Equipas da ARBL, deu-se o seguinte caso:

23
Dador:Sul
Vul: Todos

7 6 4
D 8 2
10 8 7 6 5
V 5
 
V 10 8 5 3
10 5 3
D V
A 9 7
  A R D 9 2
9 7

10 8 4 3 2
  -
A R V 6 4
A R 9 4 2
R D 6
 

 

Na minha mesa (como, acredito, em muitas outras, por exemplo na outra sala do meu encontro) o leilão teve a seguinte primeira volta:

OESTE NORTE ESTE SUL
1
P
P
?


Na minha mesa Este decidiu reabrir em 2 e depois de 3, 3, passe, passe Sul achou-se inibido pela eventual ligeira hesitação de Norte (yours truly) e decidiu passar. Acho que Sul tem mão suficiente para tomar acção suplementar, mas ok...

Na outra sala, Este fez um reveil em 1 ... e a coisa seguiu rapidamente: 3 de Sul, 5 de Norte, 6 de Sul.

Cuidado com os reveils!

Cumps,
Alberto Nobre

VI - CUIDADO COM OS RÉVEILS!

Imagine-se sentado(a) em Sul com a seguinte mão:

SUL
E- R 8 7                                            
C- 2                                                             
O- A R V 9 7 6                                                     
P- R V 2            

O leilão começou à sua esquerda e seguiu assim:

OESTE NORTE ESTE SUL
1
P
P
?

Seguindo o princípio que não existem barragens em situações de réveil, parece normal a reabertura de Sul em 3, mostrando um bom naipe e uma boa mão. A coisa seguiu assim:

OESTE NORTE ESTE SUL
1
P
P
3
Dbl
P
4
P
6
P
P
P


No morto apareceu o seguinte SCUD:

E- A D 10 5 4                                            
C- A R 4 3                                                             
O- -                                                      
P-A D 4 3 

Saída natural ao A e, 13 vazas mais tarde, o morto protestou veementemente contra a não marcação de 7. Mike Lawrence é autor e principal protagonista desta deliciosa história da vida real. Claro que se trata de uma situação marginal mas que nos alerta para a complexidade das reaberturas e para os seus riscos.

Estou certo que a todos nós já aconteceram situações talvez não tão dramáticas mas com consequências semelhantes: reabrir um leilão e ver os adversários aterrar num melhor contrato.

Não existem regras estanques para estas situações, mas o conselho é: cuidado com a ausência de anúncio de naipes ricos. Não apareceram no breve leilão mas vão, quase certo, surgir quando este se torna competitivo. Se aparecerem via parceiro, as notícias não são tão boas quanto possam parecer - se tinha um naipe rico e não entrou no leilão é porque lhe faltam pontos. Se aparecerem nos adversários, a reabertura "obrigou-os" a descobrir um fit e um contrato mais vantajoso.

Não tenha medo de reabrir mas, como dizia a minha avó: "cautelas e caldos de galinha".

Luis Oliveira

V - A PROPÓSITO DA HISTÓRIA DE UMA REIVINDICAÇÃO DE VAZAS

Antes de mais, parabéns a si e ao resto da equipa responsável pelo projecto “Estórias”.

Como sabe, não sou árbitro mas, mesmo assim, acho que sei o suficiente para fazer valer os meus direitos como jogador e poder discutir um ou outro caso de arbitragem.

Posto isto, reparei em dois pormenores no caso apresentado pelo Vitor Ferreira que penso não terem sido considerados por si e que poderão alterar a sua opinião acerca da forma como o caso deveria ser tratado.

A primeira coisa que poderá ter escapado é o ‘timing’ do ‘claim’. Caso o árbitro tivesse aplicado a lei na primeira chamada, a carta estaria penalizada e teria de ser jogada na primeira ocasião legal, certo? Parece-me que essa primeira ocasião seria: à saída. Ora, o declarante aceitou a saída (não só por ainda não estar consciente da importância do 2 de paus para o sucesso do contracto, como até lhe dar jeito para evitar algum corte extemporâneo) e só depois quiz penalizar a carta. Parece-me lógico que, ao aceitar a saída a trunfo, abdicou do direito a penalizar a carta. Assim, não pode agora reivindicar essa penalização na segunda oportunidade legal (ou mesmo um mandar voltar a trás na saída depois de ver o morto).
Tendo isso em conta e pelas regras, o árbitro deve acabar o carteio e, para efeitos de validação ou não do ‘claim’, considerar que:

1. N joga uma carta que não o 2, 7 ou dama (ou o carteio acabaria automaticamente);
2. que o carteador não vai cobrir essa carta (não vejo outro significado para "Cedo uma vaza" que não o de “Vou-me baixar a qualquer [o 2 não está penalizado como vimos atrás] carta [que não a Dama por razões de bom senso] que Norte jogue”);
3. que Sul se baixará deixando Norte em mão.

Apartir daí é ver se a Dama cai após AK de paus serem jogados e caso isso não aconteça se a Dama de Ouros está ou não bem o que me parece uma linha normal para quem cede o primeiro pau.

Isto é, do meu ponto de vista, o que deveria ser feito, não é aquilo que eu faria se fosse o árbitro. Não concordo com vários pontos dos regulamentos e este é um deles. Como as regras actualmente estão, o carteador olha para o morto, reivindica as 12 vazas negando-se a dar qualquer explicação e agora o árbitro que ache a melhor linha por ele. Acho isso ridículo! Eu, no lugar do árbitro insistiria com o carteador para me dizer como tenciona jogar caso N fique em mão e depois facilmente calcularia o resultado da linha apresentada pelo carteador.

O outro “pequeno detalhe” no relato do caso ao qual penso que o Luis não terá dado a importância devida e que até torna irrelevante tudo o que discuti acima é “Durante o leilão foi inadvertidamente vista por todos uma carta de N que estava voltada face para cima.” Ora, não estou muito certo que esta frase atribua as culpas a N... Reconheço que não sei se o leilão começa quando se retiram as cartas da carteira ou se começa apenas com a primeira voz. Se for com a voz, esqueça este ponto e considere apenas o que disse acima. Mas, se for no momento em que se pegam nas cartas, parece-me que o “estava voltada face para cima.” se refere a que foi retirada da carteira virada para cima e não deixada cair ou por alguma motivo inadvertidamente exposta por responsabilidade de quem a detinha. Assim, parece-me óbvio que não possam ser atribuídas responsabilidades a N pela situação, e, ao que sei, é a mesa anterior que deve ser penalizada e o jogo anulado na presente mesa. Isso deveria ser seguido à letra num torneio de grau de importância elevado mas defendo que num torneio mais “social” se possa optar por seguir tudo normalmente até porque na maioria das vezes um 2 não fará qualquer diferença. Compreendo, portanto, e aceito a primeira decisão do árbitro se tomada num ambiente menos rigoroso somada a uma eventual penalização aos anteriores envolvidos. Acrescentaria apenas a ressalva de que o deveriam chamar caso esse 2 se venha a tornar relevante para o carteio ou flanco e aí voltaria atrás na minha decisão e anularia o jogo.

Neste caso em particular, considero o 2 Paus informação não autorizada para qualquer das linhas. Como o carteio se baseou nessa informação, o árbitro ver-se-ia forçado a reconsiderar a sua decisão anterior e anular agora o jogo.

Nota: mesmo sem saber a posição do 2 Paus, jogar para ele ou a Q bem colocado parece-me uma boa linha (se vi bem, só perde para exactamente Qxx2 de paus em S). Ainda se fiz bem as contas, é uma linha ainda melhor do que fazer uma passagem, testar o naipe 3-3 e se tudo isso falhar fazer a passagem à outra Q (esta perde para ambas as Q em S e o primeiro naipe testado 4-2 em qualquer dos jogadores). Também melhor que linhas que acabem com uma adivinha sobre a posição das cartas para decidir qual o AKJ a jogar a seis cartas do fim.  Posto isto, deverá, até, ser a melhor linha mas, para além da questão de se ocorreria ao carteador caso não tivesse tido acesso a informação não autorizada ou da razão pela qual escolhe paus em vez do exactamente igual naipe de ouros, o carteio passaria por cobrir com o A ou K qualquer carta que não o 2 jogada por N e portanto não poderia fazer um ‘claim’ baseado em “Dou uma vaza”.

Estou certo em toda esta minha análise ou está-me a escapar algo?

Paulo Cruz

Meu caro Paulo,

Antes de mais os nossos agradecimentos pela tua colaboração e as nossas desculpas pelo atraso na publicação. Mas mais vale tarde que nunca.

Sobre as questões pertinentes que levantas e sendo certo que muitas das histórias que envolvem reivindicações e concessões alimentam intermináveis discussões de especialistas, deixa-me adiantar o seguinte:

1- De acordo com o artº 24 do CIB uma carta exposta durante o período de leilão torna-se uma carta penalizada (de notar que, independentemente da origem do problema, o jogador é responsável pelas suas cartas no momento em que as retira da carteira). Tanto quanto percebi pela descrição do Vitor, a carta continuava virada durante o período de leilão e não apenas quando foi retirada da carteira.

2- Tratando-se de uma carta pequena, é tratada como sendo uma carta penalizada secundária. A consequência é que a carta pode ser substituída por uma honra mas não por uma outra carta pequena quando tiver de ser jogada (artº 50b e artº50c do CIB). Ora, de acordo com o exposto, Norte apenas poderia "substituir" a carta penalizada por uma honra e não por uma qualquer outra carta pequena. E, mesmo que tal acontecesse, mantinha-se a situação de penalização da carta.

3- As cartas penalizadas são informação não autorizada para a linha não infractora e autorizada para a outra linha. Por isso, o nosso declarante tem todo o direito de utilizar essa informação em seu proveito. As considerações que fazes sobre as normais linhas de jogo por parte do declarante são pertinentes numa discussão meramente técnica mas partem do princípio errado de que o declarante do nosso caso não tem direito a usar a informação proveniente da exposição da carta do defensor.

4- Finalmente, quanto ao teu desacordo com alguns aspectos do CIB, nomeadamente com os que envolvem estes casos, parece-me que o facto do jogo terminar no momento da reivindicação/concessão e de ser o árbitro a decidir o resultado a partir daí, é o caminho certo. Ao reivindicar ou conceder vazas ao adversário sem indicar a linha de jogo que vai seguir, o jogador deve perder o direito de, agora alertado para a contestação dos adversários, se "lembrar" que afinal o jogo tinha ainda problemas por resolver. Existem várias coisas no CIB com as quais não concordo mas, neste caso, parece-me que a lei está certa.

Luis Oliveira

IV - HISTÓRIA DE UMA REIVINDICAÇÃO DE VAZAS
A história que se segue foi trazida até nós pelo Vitor Ferreira, a quem agradecemos a colaboração. As histórias que envolvem reivindicações de vazas e as suas consequências são imensas e, antes de vos reportar o caso em análise retenham este conselho: não reivindiquem vazas se não tiverem absoluta certeza do que estão a fazer e, quando o fizerem, expliquem a linha de jogo que suporta o vosso anúncio. Lembrem-se que O JOGO TERMINA no momento da reivindicação e que, a partir daí, SÓ O ÁRBITROtem poderes para decidir o resultado final, seguindo uma linha normal de jogo mas que, em caso de dúvida, sempre onera o reivindicador. Posto isto, vamos à história:

"Não sei se isto que vou contar se enquadra perfeitamente nesta rubrica de "Estórias",se é um simples problema ou se é um caso de arbitragem.
Foi tirado de um livro que possuo,não sei se foi real mas achei engraçado.

Após um leilão que não interessa ao caso a linha E/W chegou ao contrato de 6 espadas jogadas por W.

N saiu a uma espada e o morto expôs-se

O jogo era o seguinte:

West                                                                    East

E-A Q J 10 9 8 6                                               E-K 5 4 3 2
C- -                                                                     C- -
O-5 4 3                                                              O-A K J 6
P-5 4 3                                                               P-A K J 6

O jogador em W tabelou e disse: "Cedo uma vaza"

Os adversários não aceitaram e chamaram o árbitro. Quando o árbitro chegou à mesa teve dificuldade em decidir e até ficou um pouco comprometido!

1ª Pergunta: O jogo está de facto cumprido ou não?
2ª Pergunta: Porque ficou o árbitro indeciso na sua decisão?
3ª Pergunta: Porquê o seu comprometimento?

Para quem tem dúvidas em relação a qualquer das perguntas talvez a história real os ajude!!

Durante o leilão foi inadvertidamente vista por todos uma carta de N que estava voltada face para cima.
Chamado o árbitro e dado que a carta era o 2 de paus foi decidido pelo árbitro que o jogo tivesse o seu desenrolar normal!

Perante esta situação será que já podem responder à 1ª Pergunta?
Agora pergunto eu: "Qual deveria ter sido a actuação do árbitro na 1ª vez que foi chamado à mesa? Se actuou bem qual deveria ser a sua decisão na 2ª vez que foi chamado à mesa?"

Saudações bridgísticas

Vitor Ferreira

O caso é curioso porque envolve muito mais coisas que uma simples reivindicação. Desde logo porque o árbitro cometeu um erro grosseiro ao mandar seguir o jogo, sem mais, quando confrontado com a exposição de uma carta durante o período de leilão e que, por isso mesmo, se tornava uma carta penalizada (caso fosse uma honra haveria ainda outro tipo de consequências como seja o facto do parceiro ser obrigado a passar na vez seguinte de falar). A complexidade da situação aumenta porque a decisão do árbitro não foi contestada na altura por nenhum jogador mas o declarante decidiu substituir-se ao árbitro e penalizar a carta mostrada. Mas foi mais longe: ao reivindicar as vazas sem qualquer explicação, nomeadamente, não explicando que, considerando ele a carta de Norte penalizada e como tal obrigada a ser jogada, iria cobrir com o 6 do morto e esperar pela volta de Sul em corte e balda ou para uma das fourchettes do morto.

Perante o exposto, este é seguramente um caso com diferentes decisões por parte dos especialistas na matéria e, também, alguma controvérsia. Por um lado, um jogador não pode ser coartado nos seus direitos por um erro de facto do árbitro (não penalização da carta exposta durante o leilão). Por outro lado, esse direito deveria ter sido exigido na altura da decisão do árbitro. A reivindicação não foi acompanhada de nenhuma explicação o que, na situação presente, iria seguramente ser contestada pelos adversários. Mas o facto de não ter o árbitro sido confrontado com a sua primeira decisão não pode, em meu entender, impedir o campo não infractor de usufruir dos seus direitos. Não concordando com a forma escolhida pelo declarante, considero que é evidente a sua reivindicação e o seu direito a reclamar as 12 vazas. O comprometimento do árbitro é natural, depois de ter sido confrontado com o seu erro e que, para todos os efeitos, esteve na origem de todo o episódio. Acontece aos melhores!

Nas histórias que envolvem reivindicações, existe uma real que envolveu o Francisco Sousa Tavares, salvo erro durante um Campeonato da Europa contra a Suécia. A determinada altura do carteio, com a impetuosidade que lhe era característica, o saudoso Tareco declarou "é tudo meu", afirmação imediatamente contestada pelo sueco que ripostou "não, não. É tudo meu". E foi. Ao que parece o Tareco tinha-se esquecido de um trunfo na mão do adversário que tinha também um naipe já apurado. Não conheço a mão em concreto e creio estar a relatar fielmente a história mas se algum dos leitores conhecer os detalhes e a quiser partilhar, agradecemos.

Luis Oliveira

III - O QUE PODIA TER SIDO E (AFINAL) NÃO FOI
O título é da nossa autoria, a história é-nos reportada pelo Carlos Ferreira a quem agradecemos a colaboração.

"Não sou muito frequentador das partidas livres, nomeadamente a famosa “chaminé”, porque muitas vezes os robbers demoram imenso tempo. Aprecio muito mais o sistema “Chicago”.
Neste fim de semana vi-me envolvido numa partida livre em Chicago, a um preço simbólico com bons jogadores e sobejamente conhecidos no meio bridgistico.
Estava sentado em SUL com a seguinte mão:
♠-Q.8
♥-A.K
♦-A.K.Q.J.T.9.8.5
♣-2

O jogador sentado em E, doravante designado por MJ, abriu VERMELHO em 3ST, mostrando um naipe menor sólido. Só me ocorreu DOBRAR. Marcar 5♦ em alternativa? Pensei que se o meu parceiro não se aguentasse ao DOBRE iria marcar qualquer coisa e eu aterrava em 5♦.
O jogador em W, doravante designado por KT, passou com a seguinte mão:
♠-K.7.6.5
♥-Q.J.9.8
♦-7.6.4
♣-3.2
Na sua ideia, tendo paragem nos naipes ricos pensou que se fizesse 1 vaza o contrato estava ganho. O meu parceiro N, doravante designado por TAL, passou com a seguinte mão:
♠-A.J.T.4
♥-T.7.6.4.3
♦-3.2
♣-5.4
e contrato final de 3STx.
Saida normal a A♦, e após o desfilar dos restantes ♦, o TAL chamou a ♠.Joguei o A♥ e o K♥ e depois a Q♠, para as restantes vazas.
9 cabides X =2.600.
Não sabendo o valor de cada ponto em cêntimos  e confesso que ainda hoje não sei, pensei que iria ficar rico. Como é evidente seguiram-se os comentários:
MJ  para KT : Não percebo como passas a 3STx.
KT para MJ: Defendo os naipes ricos.
MJ-Eu devia marcar 4♣.
EU(Carlos) para MJ: Marcar 4♣?Porque razão?
Entraram os mirones em acção. A partida estava a ser jogada com 6.
BJ para MJ. Não há razão para marcares 4♣.
PF - Olha lá KT.Não tens nada a ♦.Tens de marcar 4♣ em passe ou corrige.

Será que efectivamente isto aconteceu na mesa de jogo?
Não aconteceu, porque o TAL, por quem eu nutro uma grande simpatia, não se aguentou ao meu X e marcou 4♥, que eu emendei para 5♦.
Questionei o TAL, porque não passou? Reflectiu um pouco e respondeu: Devia ter passado.

Deixo aqui o meu desafio:
- Quem passava ao DOBRE?

Assim, perdi a oportunidade de bater o meu record de pontos ganhos numa só mão.

Um abraço
Carlos Ferreira

II - FANTÁSTICAS OCORRÊNCIAS
São muitas as evidências que provam ser o bridge um fantástico jogo e um puro divertimento. Podemos enfatizar estas características através de relatos em que a extraordinária técnica dos intervenientes nos transporta para momentos mágicos, mas também através de muitas histórias tão "estranhas" quanto divertidas, que tentaremos retratar nos dois exemplos com que vos brindamos hoje.

Imaginação q.b. (primeira história) - reportada por Richard Pavlicek

Será que a realidade pode ser mais estranha que a ficção? Por mais extraordinário que possa parecer, a verdade é que PODE. Como o demonstra a situação, retirada da vida real, protagonizada por jogadores de topo do bridge internacional e reportada por Pavlicek.

As mãos:

  10 5 3
3
10 2
R D V 7 6 5 3
 
9 8 6 2
A R V 10 4
R 7 3
2
  A R D V 7 4
D 9 2
A D 6 4 
-
  -
8 7 6 5
V 9 8 5
A 10 9 8 4
 

O leilão seguiu

OESTE NORTE ESTE SUL
1
3
5ST
?

Depois da barragem de Norte, Este marcou 5ST, uma interrogativa a trunfo para um grande cheleme em copas. Antes de lhe contar a história toda, o que faria com a mão de Sul?
...
Com a garantia de 12 paus na sua linha, reforçada pela tentativa de grande cheleme de Este, Sul sabia que a saída a paus ou mesmo a trunfo não tinha qualquer hipótese de sucesso. Por isso decidiu colocar a imaginação ao serviço dos seus interesses. E aconteceu o seguinte:

OESTE NORTE ESTE SUL
1
3
5ST
6
7
7
Dbl

O resultado é fácil de adivinhar: 13 cabides dobrados, um número só suplantado pelo nosso saudoso EDU durante uma partida livre na famosa "mesa dos milagres", em que entrou em 5, onde tinha uma chicana, num leilão em que só os adversários tinham falado e a seguir a um 4ST, pretendendo dar uma saída ao parceiro. A mesma voz regressou à sua vez de falar, agora ornamentada com um dobre adversário. Redobrou para que o parceiro escolhesse um "naipe de fuga" e ficou a jogar, para um épico resultado de 4600, correspondente a 9 cabides redobrados. Recuperado o parceiro de um princípio de apoplexia e os adversários do congestionamento das vias respiratórias, sobraram as célebres e saudosas gargalhadas do EDU, para quem o pitoresco destas situações justificava bem os custos inerentes.

Imaginação q.b. (segunda história) - história que chegou até nós através do Luís Correia

O episódio passa-se numa mesa de partida livre. Um casal recebe uns amigos em casa e depois da mulher fustigar o marido por este não ter dobrado um contrato surgiu a seguinte mão:

  9 8 7 6
6 5 4 3 2
8 7 6 5
-
 
-
D V 10 9
R D V 10 9
R D V 10
  A R D V 10
A R 8 7

A 9 8 7
  5 4 3 2
-
A 4 3 2
6 5 4 3 2
 
ESTE SUL OESTE NORTE
1
2
DBL
2
DBL
2
P
P
DBL
P
P
P

Imaginativa a entrada de Sul com os únicos 4 pontos que restavam do baralho para a linha NS e um naipe...com sequência. Tivesse Oeste descoberto a saída a oiros e a nossa história seria o reporte de mais um massacre, com a defesa a realizar todas as 13 vazas. Mas Oeste, optou pela saída ao R e o resto da história é fácil de adivinhar, com o declarante a realizar 8 vazas em duplo corte e Este a resignar-se às últimas 5 vazas com os seus 150 de prémio de figuras em trunfo para abater aos prejuízos.

A defesa de Este é inteiramente sustentada pela descompostura de não ter dobrado um contrato adversário na mão anterior. Culpado ou inocente, desta vez?

Decidam vocês, caros leitores, porque nestas questões entre marido e mulher, há muito que me habituei a não opinar.

I - O BRIDGE E AS VERDADES ABSOLUTAS
O que condiciona mais o resultado final de uma competição de bridge? O leilão? O jogo da carta (carteio e/ou flanco)?
As opiniões dividem-se entre os especialistas e se bem que seja evidente que é mais fácil alcançar bons resultados quando chegamos aos bons contratos, não é menos verdade que não só o jogo da carta é importante como, ao contrário do que muitos argumentam, a forma de chegar ao melhor resultado pode conhecer diversas variantes.
José Le Dentu, num dos seus muitos artigos, defendia que os leilões variavam de jogador para jogador, porém o carteio de todos seria igual, referindo-se, obviamente, a jogadores de topo.
O próprio decidiu testar a sua informação e convidou para um seu programa de televisão três grandes jogadores, à época. Terence Reese, Jean Besse e Karl Schneider (falamos da década de 60, o que justifica as opções de leilão). Para o efeito colocou a seguinte mão:
D 8 4
R D 10 8 7 3 2
A 9
4
O parceiro, em Norte, abriu de 1ST e, como os tranfers não eram populares na época, o leilão continuou igual nas três mesas:
1ST - 3
4 - 4ST
5 - 6
Nenhuma diferença no leilão o que, de alguma forma, fazia cair a primeira parte da tese de Le Dentu. Vejamos as 4 mãos e os carteios dos 3 convidados, com a saída a trunfo:

  V 7
A V 4
R 7 6 2
A D V 10
 
R 10 6 5
6 5
D 8 3
R 9 6 5
  A 9 3 2
9
V 10 5 4 
8 7 3 2
  D 8 4
R D 10 8 7 3 2
A 9
4
 


Na primeira mesa, Reese fez a vaza com o A e, sem tirar o último trunfo para evitar alguma sinalização dos adversários, jogou A e D, baldando um oiro da mão. Oeste fez a vaza e voltou oiros. Reese então entrou no V e baldou as três Espadas perdentes R e nos paus.

Na segunda mesa, Schneider, após fazer o A, jogou imediatamente o V. Oeste, achando que o carteador queria cortar as espadas na mesa, voltou trunfo. Schneider fez a vaza na mão e, após fazer a passagem a paus, bater o A para baldar uma espada e cortar um pau, bateu todos os trunfos criando uma posição de duplo squeeze:

  -
-
R 7 6
V
 
-
-
D 8 3
R
  A
-
V 10 5
-
  D
3
A 9
-
 


Quando Sul joga o último trunfo, os adversários não têm balda satisfatória para impedir que o carteador faça todas as vazas.

Vejamos agora o carteio de Besse. Depois de bater o A e R, jogou A, oiro para o R e oiro cortado. Entrou na mão no V e cortou o último oiro. Depois bateu todos os trunfos chegando a seguinte posição:

  V 7
-
-
A D V
 
R 10
-
-
R 9 6
  A 9 3
-
-
8 7
  D 8 4
3
-
4
 


Oeste não pode baldar paus nem o R, pois qualquer destas baldas daria a 12a vaza ao carteador, portanto tem que baldar o 10, o morto balda o 7 e Este o 7. Sul, agora, após fazer a passagem a paus, joga o V. Se Este recuar o A, Oeste. Fica em mão no R e é obrigado a jogar paus, dando as duas últimas vazas para o carteador; se Este entrar com o A, será ele a ter de jogar, espadas para a fourchette de D8 do carteador ou paus para a mesa.

E lá se foi a tese defendida por Le Dentu. Três leilões iguais e três carteios tão diferentes para se chegar a um resultado comum.
(extraído do livro “Bridge a la une” de José Le Dentu)

Nos dias que correm, o leilão seria um pouco mais sofisticado, possivelmente:
1ST - 2 (transfer)
2 - 4 (splinter)
4 - P

O que teria evitado o mau cheleme a que chegaram os especialistas da época mas também, se assim fosse, não teríamos oportunidade de vos contar este delicioso episódio.


Comentarios & Perguntas